Estupidologia s. f. - Ciência que estuda a auto-repressão voluntaria da razão e dos sentimentos; interesse pragmatico-investigativo pelos non-sense da vida em colectividade; teoria matemática que defende existir uma relação de proporção directa entre a sensação de felicidade e a acção de mecanismos primários do homem; designação do maior, mais antigo e poderoso lobbie do mundo; empresa familiar de farturas; nome de um blog

domingo

Viva 2006!

Já só faltam

anos para a bancarrota da Segurança Social

A emocionante expectativa



Já só faltam

anos para a bancarrota da Segurança Social

Comemorações

Há emoção no ar





Não bastava o planeta ter dado outra volta ao sol - motivo de unânime e reconhecido júbilo -, este blog comemora também o seu segundo aniversário.

Por isso - vá, mãos largas - sai uma sandes de frango pa' cada um. Ist' hoje é q'vai ser, hein? Tudo à grande. Não gosta da maionese? Sai uma travessa de croquetes. Mau. Também não? Sai uma pratalhada de gambas. Ah, ok, é este ano que vai começar com a tal dieta, não é? E só uma ou duas folhinhas de fiambre enroladas? Vegetariano? Sem problema. Sai uma talhada de melancia! A gente - veja lá, hã? - a gente não quer que lhe dê a fraqueza, hã? Fome não tem? Sai uma mini! Não vai? Olhe que 'tá fchquinha, hã? Porquê? Pois. Foi até às tantas, ontem. Sai uma água das pedras. Também não vai? Olhe qu'é de graça. Veja lá. Se quiser levar num tupperware alguma coisinha para comer mais logo...

sexta-feira

Renegado de Boliqueime

Rrrrrrepetir



Eu queria aquele cd. Eu desejava aquele cd. Eu – qual ressacado do haxe – precisava daquele cd.

Tudo começou no metro. Vi um cartaz, depois outro, e outro, e outro, e outro, e outro, que dizia – e outro - « Mandona – Confessions on a dancefloor – Irresistível novo álbum».

Irresistível, li. Irresistível. Aquilo gerou todo um efeito em mim, que me apanhou – não sei se conseguem ter noção - desde o tenencéfalo até ali àquela zona onde fica a medula oblonga.

Mal cheguei a casa, gritei como se não houvesse amanhã: «Ó mãe, ó mãe, compra-me o irresistível novo cd da Mandona»

Ela disse: «Não». E eu insisti: «Vá lá». E ela: «Não». E eu: «Bolas, mãe». E ela: «Mau». E eu: «Mas porquê». E ela: «Levas com o chinelo. Aníbal António.» E eu calei-me.

Depois de uma pausa, disse-me: «Olha, só por causa disso, vais já para o quarto reflectir sobre o teu comportamento desagradável, hmmm?».

Não sei porquê aquilo de ficar fechado no quarto não me pareceu lá muito boa ideia e foi coisa para inclusivamente me causar algum apoquentamento.

«E agora o que é que eu vou fazer?» Habitava em mim todo um conflito interior. Por um lado, a minha mãe. Se me apanhasse a fugir, levava com o chinelo. Por outro, o cd era irresistível.

Ia ficar ali fechado no quarto? E eu disse cá para comigo: «Não». Tirei do armário o porco de loiça, joguei a mão à maçaneta e. Bolas. A minha mãe.

Com as moedas de dois cêntimos a chocalhar, desatei a correr, a correr, a correr, a correr, a correr em direcção à loja e – ó indizível alegria – não é que tinha conseguido adquirir a minha cópia original do novo álbum da Mandona?

Já a espumar de ansiedade, regressei a casa possesso por ouvir o cd que levava escondido no casaco.

Ia eu pôr o cd no leitor quando a minha mãe me diz: «Olha lá, isso que aí pões não ocorre tratar-se do novo álbum da Mandona, pois não?». Respondi: «Não. Já aprendi a lição com aquele castigo de ficar fechado no quarto a reflectir; e olha que me tornei num homem novo».

Mal virou costas, dei play. Aaaah. Tal era o bom do novo cd da Mandona: abri a boca, salivei e revirei os olhos. À falta de limão - é -, não pude evitar um espasmo grave e prolongado.

Nisto, quem entra? A minha mãe. Disse-me:

«Ahaaa. Com que então a ouvir a Mandona, hein? Seu malvado.»

Foi um raspanete e tanto. Que não tinha jeito nenhum a casa parecer uma estação de metro, que não tarda chamava mais alguém da família para gritar "Marquês de Pombal; há correspondência com a linha azul" ou então para fazer o pIII-pIII-pIII-pIII-pIII-CLAaaNnG das portas a fecharem.

«E eu pergunto. Achas isso bem? Hmm? Seu malvado.» - perguntou ela com uma mão na anca e outra a segurar num rolo da massa de alumínio. Anibal António, dá cá isso imediatamente que agora temos que ir jantar». Eu disse: «Não». E ela insistiu: «Maaau». E eu: «Não». E ela: «Olha que eu tenho aqui uma corda». E eu: «Não mandas em mim». E ela: «Ai é?». E amarrou-me a uma cadeira. «Tommmaaaa!», disse antes de trancar a porta à chave.

Sozinho e em silêncio - enfim, qual homem na sua solidão primordial, dominando o horizonte com o olhar enquanto o cabelo esvoaça ao sabor da nortada numa praia de Peniche - ali com o cd pousado à frente, continuei a espumar da boca com alguma intensidade. « Mandona – Confessions on a dancefloor – Irresistível novo álbum».. Irresistível. Irresistível. Irresistível.

O cheiro a batatas a murro no forno, depois de um intenso dia de labuta, de terem passado 14 horas sobre a minha anterior refeição, cerca de meia maçã, e para mais ter que ficar sem jantar, vá, era como o outro. Agora, sem a Mandona é que não.

Quinze dias depois, quando a minha mãe me veio desamarrar, tudo estava ultrapassado. Chiça, lá tinha conseguido vencer a irrestibilidade do cd, hein?, - pá aquela pulsão ênterior, aquele desejo freudiano, como dizer?, aquele leão q'há em nós. Que difícil que tinha sido libertar-me da Mandona. Ufa, aquilo é que foi, hein?

Aqueles quinze dias a pensar na vida amarrado numa cadeira deixaram-me com um ratito no estômago. Quando me dirigi à cozinha, lá estava o rádio ligado e a minha irmã a cantarolar a Rita Guerra, de olhos fechados e de braços ondulantes no ar «Á espera de luuuz, à espera do maaar, à espera do soool...»

Pedi-lhe: «Arranjas-me o mp3?» Ela disse: «Não». E eu insisti: «Vá lá». E ela: «Não». E eu: «Bolas, Jéssica Joana». E ela: «Mau». E eu: «Mas porquê?». E ela: «Olha q'eu tenho aqui um berbequim - e olha que este é daqueles que aleija». E eu calei-me.

terça-feira

Intemporal II

Pérolas da literatura contemporânea

«Quando se preparava para abrir a porta do quarto, ouviu um leve grito vindo do quarto do lado. Depois desse grito, ouviu outro grito, ouviu outro e, logo a seguir, outro mais grave e ainda uma voz masculina a falar inglês. (...) Rute estava a fazer amor com um nativo»



Manuela Fonte, Atracção nos Trópicos

Intemporal

Pérolas da literatura contemporânea

«Os dois corpos (...) faziam uma união mágica (...) como se a humanidade estivesse ali toda concentrada»



Manuela Fonte, Atracção nos Trópicos

Com tecnologia do Blogger.

Seguidores