Estupidologia s. f. - Ciência que estuda a auto-repressão voluntaria da razão e dos sentimentos; interesse pragmatico-investigativo pelos non-sense da vida em colectividade; teoria matemática que defende existir uma relação de proporção directa entre a sensação de felicidade e a acção de mecanismos primários do homem; designação do maior, mais antigo e poderoso lobbie do mundo; empresa familiar de farturas; nome de um blog

terça-feira

Honoris Causa

"Foi criada uma secção no menú lateral denominada de "Estupidologia - Ouve Aqui" (...). A vossa sanidade mental não está salvaguardada. Mas ouçam à mesma."


Programa 1

Programa 2

Programa 3

Programa 4


Parecendo que não, promover a estupidologia enquanto paradigma estruturante do saber humano dá estatuto académico e, vá lá, uma certa vaidade. Quando uma pessoa anda sempre, como eu, com a maior das naturalidades, com a sua toga e traje preto, com um rolo de papiro enrolado na mão, as pessoas comentam "bzbz, olha, lá vai o estupidólogo, bzbz". Vêm ter comigo e pedem-me a opinião sobre coisas, mesmo que eu esteja com o cesto das compras no antebraço na secção das hortaliças.

A mim e não só. A um restrito conjunto de pessoas, todas elas acostumadas a andar de toga, de traje preto e com um rolo de papiro enrolado na mão, nas mais variadísimas situações de convivência, nomeadamente social.

António Marçal, Pedro Gabriel e Tiago Florêncio são estupidólogos incontornáveis porque conseguiram que um programa de rádio com o nome "estupidologia" existisse. Desculpem, há mérito. Se é já de si whatthefuckiano que alguém chame a um blogue "estupi..." coiso, muito menos a um programa de rádio. Era o que faltava agora levar o saber ás pessoas. Muito menos na parte da noite. Muito menos numa rádio. Já é incomodar.

Primeiro, na cadeira de Atelier de Rádio, na universidade, depois, pela região da Grande Lisboa onde o sinal 97.8 da Radar chegava, quais jardineiros, dedicaram-se à disseminação - cirúrigica - das sementes do saber estupidológico. Pedro Gabriel, no seu blog, faz-me recordar dos tempos de universidade e pós-universidade ao disponibilizar programas que andavam perdidos na minha memória...

quinta-feira

Post extremamente positivo

Hoje estou extremamente bem disposto. Tão bem disposto que até vou escrever a palavra yupi.

Confesso que, por instantes, houve uma ténue hesitação entre a palavra "yha" e o intemporal grito de Speedy Gonzalez "Anda-le, anda-le!, arriba, arriba".

Mas optei pela palavra yupi.

"Yha" é uma alegra para o abrutalhado. E a minha alegria de hoje não é para o abrutalhado. Já "anda-le, anda-le!, arriba, arriba" é uma alegria, também ela, de índole equestre, mas com um toque mexicano. A minha boa disposição de hoje não só não é de índole equestre como também não é, de todo, mexicana - embora eu tolere, com reservas, que seja servo-montenegrina, ali com um polvilhar de xiita.

Yupi sim, é uma opção semanticamente mais aproximada do meu estado de espírito. Yupi tem celebração, tem serenidade, tem ponderação, com a vantagem de fazer lembrar sobemesas lácteas da década de 80. Não é fácil encontrar palavras que traduzam o nosso estado de espírito e que ao mesmo tempo nos consigam fazer lembrar sobremesas lácteas do final da década de 80.

Yupi é uma palavra que não pára de surpreender. É que, mesmo do ponto de vista sintático, ela inclui um i grego no princípio e um i latino no fim, o que confere equilíbrio á forma, enquanto denuncia uma alegria que não ofende, balanceada, tolerante, no conteúdo.

E de maneiras que hoje estou extremamente bem disposto. Tão bem disposto que até vou escrever a palavra yupi.

quarta-feira

Lamentável

Hoje celebra-se o dia dos namorados. Vejo pouca gente a comemorar. Afinal, trata-se de um dia em que só os namorados é que comemoram. Natural. é o seu dia, um dia próprio, específico, especialmente concebido para.

Mas - e eis-me transtornado - e os juntos? E as curtes? E os amantes? E os casados? Marginalizar é feio e não se faz.

Quer dizer, tanta gente q'há praí cheia de vontade de oferecer um telemóvel 4G rosa que faz parzinho, frascos de perfume q'encaixam de verdade ou almofadinhas a dizer "és a minha fofa" e o calendário ocidental a impôr limitações.

terça-feira

Pelo sim pelo não



Sim porque isto, não porque aquilo. Quando não tenho nada para fazer e estou para o aborrecido, divirto-me, quase à brava, a ouvir pessoas a discutir acaloradamente sobre o aborto. "A vida começa no momento X". "Não é nada, é no ponto Y"; "As mulheres abortam porque devem ter direito a controlar a sua vida"; "As mulheres abortam porque não têm condições, duh"; "Parvo". "Estúpido". E de maneiras que é um referendo que vai mudar muita coisa. Quando o SIM ganhar terá lugar todo um vasto conjunto de alterações.

1. "Antes havia abortos. Depois passarão a haver interrupções voluntárias da gravidez".

Consideração pessoal: A terminologia trará elegância à nossa língua. Quando vemos uma pessoa feia dizemos dasagradavelmente que é um aborto e não uma interrupção voluntária da gravidez. Injusto. Um ponto para o SIM.

2. Antes, na maioria dos casos, a mulher era criminosa e tinha tendência para desenvolver sentimentos de culpa. Depois, passarão apenas a ter tendência para desenvolver sentimentos de culpa.

Consideração pessoal: Aaah - alívio! É um peso muito menor. Dois pontos para o SIM.

3. Antes, a maioria dos médicos recusava-se a fazer abortos, invocando o Juramento de Hipócrates. Depois, a maioria dos médicos passou recusar-se a fazer interrupções voluntárias da gravidez, invocando o Juramento de Hipócrates.

Consideração pessoal: Por um lado, para além de se poder abortar em caso de perigo de vida da grávida e do feto, uma mulher que entenda não ter um filho naquele momento estará salvaguardada perante a lei e a sociedade, até às 10 semanas. Por outro, os médicos do sector público recusam-se quase todos a praticar o aborto, por vezes mesmo nos casos extremos. Os dois têm direito a fazer o que a consciência lhes manda. A lei existirá. As filas de espera também. Empate.

4. Antes havia centros de saúde, clínicas e hospitais. Depois, passarão a haver "estabelecimentos de saúde legalmente autorizados"

Consideração pessoal: As mulheres de classes socio-económicas desfavorecidas que entendam abortar poderão não apenas recorrer ao serviço nacional de saúde como também a "estabelecimentos de saúde legalmente autorizados". Ou seja, privados. O público oferece a possibilidade legal, mas demorará na execução efectiva. O privado resolve, mas é caro. Toda uma escolha: ou privado, ou privado. Um ponto para o NÃO.

5. Antes, era preciso ir a Espanha. Depois, passa a ser possível também em Portugal.

Consideração pessoal: Há comodidade para o utente. Claramente, três pontos para o SIM.

quinta-feira

Meta aspiracional

Gostava me tornar num novo-rico. Por um lado, ainda sou novo e tenho hipóteses. Por outro, a torneira dos fundos perdidos da UE já secou. Algo me diz que isso pode constituir um entrave à realização deste meu sonho...

Mas era bom. Não tinha que trabalhar muito e teria gostos simples. Música pimba. Futebol Clube do Porto. Ucranianas. As pessoas podiam rir-se de mim mas eu é que tinha o dinheiro. E jipes.

Eu seria um tipo ambicioso. Estou a imaginar-me a ir ao banco dar a entrada para a vivenda. Qualquer pessoa de sucesso tem uma vivenda. Tudo bem que eu sou um tipo para o sub-urbano, mas o crédito existe para quê? Quando olhamos para os vizinhos e vemos que eles compraram uma vivenda, é de uma pessoa ficar com inveja.

Comandaria os meus próprios negócios. Os meus empregados seriam todos corridos a recibos verdes para poupar nos salários e ainda ganhar algum no IRS. Investir? Claro. A fachada do armazém de construção civil tem que se mudar de tempos a tempos.

Que momentos de lazer eu teria. Levaria a filharada e a mulher comigo e faria viagens no meu jipe, onde apreciaria, de olhos fechados, a sonoridade introspectiva de Tony Carreira. E não me inibiria de evacuar mesmo junto à estrada se a vontade apertasse: a família ficava no carro; a porta ficava aberta de modo a difundir a música; e eu, ali, junto aos arbustos, num momento de descontracção. Era diferente.

Dizem que os novos-ricos têm mau gosto. Pois eu faria gala de o mostrar. Para que é que serve a cultura? Para conhecer mais? E para que é que isso serve? Eu é que teria o dinheiro...

Queria lá eu saber da presidência portuguesa da União Europeia" no 2º semestre de 2007. Queria lá eu saber do referendo do aborto. Queria lá eu saber do risco de estrangulamento em 2014 da Caixa Geral de Aposentações. Eu queria era sossego. Os tipos que andam sempre preocupados com o Conhecimento estão sempre tesos. Os intelectuais: todos pobres.

E aos fins de semana, convidava uns amigos para ver a minha casa de família de modo a que pudessem constatar o quanto eu tinha progredido socialmente desde a semana passada: que tinha mudado de jipe, que estava a instalar uma piscina e que tinha um plasma para ver os jogos do Porto na SportTV.

E aí sim, eu tornar-me-ia numa pessoa extraordinária.
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